Mara, Kelly, Mayara e Bauman

Há alguns dias, o Churrasco Grego postou link para o vídeo de “Quem tá solteiro vive menos”, novo hit da guria curitibana Mc Mayara, herdeira da escola Kelly Key anos 2000 – mas sem o mesmo corpo e, bem… sem o Latino.

Depois de ouvir versos como “eu sou novinha assanhada / e o meu lema é o seguinte: / eu pego e não me apego, / eu só te iludo, / acredite”, brinquei com alguns amigos que Bauman explicaria o apelo da menina. Isso porque o que poderia melhor representar a ideia da liquidez nos relacionamentos do que uma garota recém saída da puberdade tomando como lema pegar e não se apegar, viver o momento da relação sem qualquer perspectiva ou expectativa de futuro?

Sem pretensão de julgá-la por sua música, Mc Mayara com o seu discurso (tenha sido ou não escrito pela própria), é representante icônica da geração que vem sendo formada há muitos anos. Foi preciso um tempo considerável para que as meninas que, nos anos 80, bradavam que não fazia mal, “eu to carente, mas eu to legal”, chegassem a “quem tá solteiro vive menos: menos, menos complicado, menos, menos estressado, menos, menos corneado e é por isso que eu não me amarro” – não sem passar antes pela fase do “Baba, baby! Olha o que perdeu!”. A guria dos passos duros é uma voz que fala por todas aquelas que você não pode perder porque… cara, você nunca as teve. Elas só te iludiram. Estar carente, mesmo que legal? Desculpe, Mara. Isso é coisa da sua época. Não dessa.

Não ter nada, não saber o que se tem ou ainda, assumidamente, não querer ter nada com aquela pessoa com quem você trocou alguns fluídos durante a última noite, as últimas semanas ou os últimos meses é uma realidade que, cada vez mais, sai dos bastidores e passa para a esfera pública – seja por mimimis e indiretas em redes sociais, seja nas letras das músicas que dominam as paradas.

É sintomático. O que há de mais popular na música nacional do presente (sempre um bom termômetro para o momento cultural de uma nação) fala exatamente sobre isso. Somos a geração do sábado na balada e dos tchetchereretchetchês. Se a meta, em outros tempos, era encontrar alguém e, ao menos supostamente, sossegar, hoje, nos ocupamos com tchus e tchas.

Se somos mais felizes assim? Mc Mayara diz que é.

Que fale por ela.

2 Comments

  1. Que fale por ela. Eu sou de outra geração.
    E acho essa geração dela… hum… lamentável

  2. Duas coisas que me dão muita vergonha: essas músicas e como elas refletem mesmo o comportamento de uma parte enorme das pessoas. Na verdade, chega até a ser meio triste, mas…
    Gostei muito dos seus textos e do My Blue Valentine ali em cima :)

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